Quando abriu a geladeira depois de um dia cheio, suspirou. Realmente não foi fácil. Enrolar seu supervisor era uma tarefa tão complicada quanto efetuar seu trabalho, talvez fosse até mais complexo, e hoje ele resolveu dar uma de inspetor e tirar o dia para verificar seu trabalho: faz isso, faz aquilo, preciso do relatório de vendas da sua região hoje na mesa.

Depois de aparentar fazer tudo o que ele pediu e ainda enviar uma receita de pamonha junto aos dados no relatório de vendas, que, por sinal, tomou bastante tempo — inventar dados é tão complexo quanto obter os dados. Tem que verificar históricos, simular crescimento de acordo com outras regiões e combinar os dados com a receita de pamonha, que, aliás, foi recheada com queijo. Mas é o que acontece quando se perde o acesso ao portal de informações da rede. Não que seja difícil obter um novo acesso, mas teria que falar com a Renata do TI, e isso podia esperar. Afinal, ele até trocou a loja onde vai jogar Pokémon para não trombar com ela e sua maldita Starmie.

Foi um dia realmente difícil.

Ele ficou pensando nisso uns dez minutos com a geladeira aberta, até ela se incomodar, começar a apitar, mandar mensagem para seu celular e pedir educadamente que fechasse a porta. Antes de obedecer, retirou um pote de iogurte aberto e colocou no balcão.

Enquanto pegava a granola MONT, muito boa, por sinal, com cereais tostados artesanalmente e frutas cristalizadas, pensava no quão mão de vaca o Maicon podia ser: guardar um iogurte pela metade na geladeira. Não que comer a comida dos outros seja uma atitude louvável. Antes de colocar o cereal, cheirou o pote. Parecia tudo OK. Misturou a granola e sentou em frente à TV para ver o último Calling de Flesh and Blood.

O dia estava ficando relativamente melhor. Um jogador de Viserai estava realizando jogadas excepcionais, mas, infelizmente para ele, montar um Viserai estava fora de cogitação. O melhor era manter sua Marlyn e se virar com o que tinha.

Enquanto ingeria sua última colherada, começou a pensar que talvez o iogurte estivesse fora da validade. Talvez pelo fato de suas fezes estarem escorrendo pelas pernas e ele não ter notado, ou também pelo barulho vindo da sua barriga. De qualquer forma, foi obrigado a pausar a final e correr ao banheiro para acompanhar a partida pelos comentários no WhatsApp.

Enquanto seu intestino era evacuado, relembrou como tudo podia piorar, igual quando seu avô disse que Bob, seu poodle preto, pediu férias, por isso foi viajar para uma ilha paradisíaca. Mas, à noite, ele escutou sua mãe dizendo para seu avô tomar cuidado ao carregar peso: coitado do Bob, nem deve ter visto de onde veio o caixote que esmagou sua cabeça.

Essa lembrança sempre vinha quando pensava em seu avô. Ele amava seu avô. A verdade dele era melhor que a de sua mãe. Infelizmente, ele faleceu. E não por conta de caixa que caiu na sua cabeça, muito menos um cachorro, mas o marido de uma amante o atropelou.

De qualquer forma, essa lembrança foi interrompida ao ouvir vários xingamentos e maldições vindos da sala. Isso o deixou ligeiramente mais animado.

Maicon estava realmente irritado, tanto por seu colega de quarto ter defecado em cima de seu tapete, no sofá e feito um rastro de fezes por todo o corredor quanto por ter comido a metade de seu iogurte. Ele gritava, chamando-o de corno, e isso o entristeceu, pois ele realmente era corno. A Renata do TI gostava de apontar isso a ele quando falava de sua melhor amiga. Mas Maicon também gritou algo sobre um experimento que havia inoculado no iogurte.

Quando ouviu, Guilherme também começou a gritar no banheiro e a ofender Maicon, chamando-o de coisas que ele aparentava não ser. Mas também o chamou de drogado e imbecil e informou que deveria ter etiquetado o iogurte.

Afinal, quem coloca um experimento bioquímico em um pote de iogurte?

Maicon devolveu a questão:

Quem come um iogurte aberto de outra pessoa?

Quando saiu do banheiro, Guilherme perguntou se deveria ir ao hospital ou sentar no sofá sujo e esperar a morte. Concordaram que morrer num apartamento alugado e todo sujo de diarreia era uma opção muito ruim e, então, chamaram um Uber. Afinal, não queriam arriscar com um dos carros próprios. Talvez um dia o cheiro saísse, mas a memória manteria o cheiro para sempre.

Durante o caminho, Maicon explicou a situação, informando que a radiação usada no experimento era razoavelmente pequena e a quantidade de metal pesado não deveria ser um problema imediato. Apenas um pouco de cobalto e algumas enzimas que foram usadas em um experimento que, aparentemente, não funcionou.

Por que alguém guardaria um experimento falho?

Bom, aparentemente, Maicon tinha um experimento pessoal em mente, que fazia tanto sentido quanto o ideal político do seu fornecedor de “suplemento psicoterápico”, como ele mesmo gostava de chamar.

Após chegar ao hospital ileso de vazamentos por qualquer orifício, passar por uma bateria de exames e conversar com vários médicos, Guilherme estava certo de que iria morrer enquanto observava o médico do ultrassom, que aparentava uma expressão de perplexidade.

Depois disso, foi para o exame de colonoscopia, onde todos ficaram incrédulos. Na parede do intestino delgado havia uma mensagem. Primeiro, o que parecia ser:

OLÁ.

Depois mudou para:

ESTAMOS VIVOS.

E, por fim:

SOMOS PACÍFICOS.

Então o médico informou que, aparentemente, havia seres inteligentes o suficiente para soletrar algumas palavras em português vivendo no intestino dele.

Eles disseram que eram pacíficos.

Enquanto conversavam sobre a experiência, o médico informou que podiam não ser tão pacíficos assim: eles exigiam que ingerisse mais iogurte e tudo ficaria bem.

Aparentemente, uma ameaça tranquila.

O Dr. Hamilton informou que era seu primeiro caso de enteroparasitos inteligentes, mas já tinha ouvido falar de alguns casos e, no geral, acabavam tendo uma relação de mutualismo, caso houvesse uma concordância entre o hospedeiro e o parasita. Caso contrário, existem fraldas geriátricas.

Fizeram uma coleta, mas o médico acreditava que fossem protozoários, o que não fez a mínima diferença para Guilherme, que, aliás, é quem estamos acompanhando.

Antes mesmo de sair do hospital, notou que se sentia muito melhor. Foi só tomar um pouco de iogurte. Não sabia dizer se estava muito mal e a pouca melhora foi o suficiente para fazê-lo se sentir muito bem ou se algo realmente tinha mudado.

Parecia entender melhor o mundo e lembrar de coisas que pensava ter esquecido. Quando a enfermeira perguntou qual médico o havia atendido, ele soube dizer até o CRM que estava no crachá do Dr. Hamilton. Pensou na relação entre o amido de milho contido na cápsula do seu remédio para disenteria e a receita de pamonha que não deveria estar sendo lida por seu supervisor. Lembrou até a senha para acessar o portal de dados da empresa e, infelizmente, também lembrou da sua ex-namorada na cama com o pizzaiolo do restaurante em frente ao seu antigo prédio.

Em casa, deixou o Calling rolando na TV e limpou a sala e os móveis enquanto pensava em como Maicon era irresponsável por trazer seu traficante de “suplementos” para dentro.

Eles estavam conversando sobre prazo, enzimas radioativas em micélios, liberdade de expressão, autoritarismo e, finalmente, sobre um intestino que abrigava protozoários instruídos.

Enquanto Rodnei acendia um cigarro, que ajudava a sala a ficar com cheiro de banheiro público, perguntava se Guilherme iria permitir que vermes controlassem seu corpo igual os bandidos controlam o país.

Guilherme apenas informou que, diferente dos bandidos no poder, a decisão de ingerir os protozoários foi ignorantemente monocrática.

Depois disso, Rodnei se animou em defender a monarquia e explicar como isso acabaria com o tráfico. A conversa parou de fazer sentido, e Guilherme achou melhor se retirar.

Entrou no quarto, reformulou todo seu deck da Marlyn, escreveu e gravou uma deck tech, postou no YouTube, criou um programa para disparar ligações com diversas expressões ofensivas direcionados à sua ex e foi dormir tranquilo.

Quando acordou, levantou rápido e verificou que estava tudo limpo. Tomou seu iogurte e foi para o trabalho.

Como era entediante, fazia sentido seu supervisor ficar em cima. Ajudava a passar o tempo. Então se sensibilizou com o chefe e fez um pedido de pamonha no aplicativo.

Ninguém entendeu o motivo da comemoração, muito menos por que tinha que ser com pamonha.

A Renata do TI resolveu puxar papo e comentou, em particular, se era porque ele odiava pizza.

Então Guilherme resolveu mentir que não, pois sempre foi apaixonado por ela, mas Vanessa, sua ex, adorava falar em como Renata era uma biscate — isso era verdade — e também em como ela era burra — isso também era verdade.

Renata começou a falar alto, fez uma cena, jogou pamonha na cara dele e saiu chorando.

Com a cara suja, Guilherme gritou pedindo desculpas e disse que a amava.

Logo em seguida, informou que não conseguiria continuar trabalhando ali, o que era uma verdade, pois o relatório de vendas verdadeiro iria mostrar que não havia venda.

Depois de alguns meses, sua vida estava diferente. Havia se inscrito em vários torneios e ganhou todos de que participou, tornando-se referência global na classe Ranger. Criou uma maneira inovadora de jogar com a Marlyn.

Depois de se mudar, porque não conseguia esquecer o cheiro de diarreia no sofá e também porque Rodnei aparecia com mais frequência para conversar sobre política — o que era muito irritante porque ele deveria estar preso de acordo com suas próprias convicções —, foi o próprio Rodnei quem ligou para informar sobre a morte de Maicon, dizer que ele ficou devendo trezentos reais e também oferecer algumas drogas.

Guilherme ficou triste por descobrir que seu ex-companheiro de quarto havia falecido por intoxicação. Aparentemente, ingeriu metal radioativo.

Durante a última semana, o inchaço no abdômen havia aumentado bastante. A barriga parecia endurecida em alguns pontos e, às vezes, conseguia perceber alguma coisa se movendo de um lado para o outro.

Achou preocupante e resolveu consultar o médico.

O Dr. Hamilton havia pesquisado mais sobre protozoários inteligentes e o alertou sobre alguns casos em que houve divergências e os parasitas fizeram uma evacuação do organismo do hospedeiro. Nesses poucos casos, o resultado foi sempre o mesmo: degeneração total do hospedeiro.

O parasita fazia todo o controle metabólico, a absorção de nutrientes e vitaminas e os direcionava para o corpo. Sua saída não só impactaria isso como também dilaceraria parte do intestino.

Guilherme perguntou se aquele volume no abdômen era normal.

O médico respondeu que não.

Perguntou se alguma coisa deveria se mexer daquele jeito.

O médico respondeu que definitivamente não.

Dessa forma, indicou um infectologista, mas só havia data durante o Mundial, então Guilherme teve que adiar a consulta. Era preocupante, mas não suficientemente preocupante para perder o evento.

Durante o Mundial que iria garantir a entrada para o Intergaláctico na Lua, ele estava liderando o torneio sem nenhuma derrota. Havia ganhado peso considerável em poucas semanas e sempre mantinha uma garrafa com iogurte. Agora bebia quase automaticamente entre as partidas.

Usava o banheiro com frequência, e foi assim até chegar à final.

Enquanto enfrentava seu oponente, tomou um gole. Dores abdominais começaram a incomodar, seu raciocínio ficou lento e ele parecia estar perdido.

Foi quando aconteceu.

Caiu de cócoras no chão e começou a gritar de dor. Ajoelhou-se, e seus olhos se esbugalharam. Parecia estar fazendo yoga de uma maneira muito dolorida. Um volume começou a crescer em sua traseira e a escorrer pelas pernas.

Algo gosmento caiu do seu shorts.

E todos puderam ver:

ali nasceu o grande jogador de Riptide, LactoCocos.

E assim surgiu um dos maiores, e talvez o maior, jogador de Riptide da história de Flesh and Blood.

LactoCocos ganhou fama rapidamente e se tornou a primeira colônia de protozoários a ganhar um Mundial. Até a LSS mudar as regras sobre a participação de colônias nos torneios, ele era imbatível.

Hoje é possível jogar com ele no HUB, lugar onde administra o sistema sanitário e é proprietário de um bar.

Guilherme definhou até sua morte, em um asilo em sua cidade natal, quando um carro desgovernado atravessou o muro e acertou sua cadeira de rodas enquanto estava ao sol.